sábado, 20 de março de 2021

Que...

 Que tenhamos mais espaço 

Para abrir os nossos braços 

E acolher o mundo neles.

Que aproveitemos nosso tempo

Para viver cada momento

Com intensidade e alegria. 

Que possamos nos despir

De todo e qualquer medo,

Nos despir dos preconceitos,

Deixando corpo e alma em pelo,

Desnudas,

Interinhos à mostra,

Pelo avesso.

Sejam nossos olhos vitrines 

De nossos sublimes corações. 

Que chegue o tempo da graça 

Em que possamos ser nós mesmo,

Sem receios,

Sem maquiagem 

E sem vergonha...

Vanda Felix




sexta-feira, 19 de março de 2021

Omissão

"O egoísmo pessoal, o comodismo, a falta de generosidade, as pequenas covardias do cotidiano, tudo isso contribui para essa perniciosa forma de cegueira mental que consiste em estar no mundo e não ver o mundo, ou só ver dele o que, em cada momento, for suscetível de servir aos nossos interesses.” José Saramago🍃 


Estou sofrendo tuas dores 

E minhas mãos estão atadas... 

Estou sofrendo teus sofreres 

E minha boca está tapada. 

No silêncio da noite 

Ouço teus gritos. 

No raiar de cada dia 

Ouço teus soluços. 

Dói teu corpo, 

Dói minha alma. 

Minha voz silencia 

Em sinal de covardia. 

Minha oração não chega a ti, 

Não atende a teus apelos. 

Mais valeria minha ação 

Que meu clamor aos céus.  

Mas não tenho forças, 

 Não tenho coragem 

Então, me acompanha tua imagem 

De dor e padecimento. 

Dizer que sinto teu sofrer 

Não te alivia o sofrimento. 

Tomar para mim tuas dores 

Sem agir em teu favor e defesa 

Não me alivia a culpa, 

A complacência

Nem me livra do teu sangue

Que corre entre meus dedos...

Então, tapo meus ouvidos, 

Fecho os meus olhos 

E nego todos meus sentidos. 

Me dou conta de que sou uma farsa 

E sigo mansa, 

(E omissa)

Meus caminhos, 

Fingindo que tudo está bem. 

Que tudo ficará bem... 

Mas não está 

 E não estará, 

 Pois não consigo enganar minha alma, 

Que chora, grita e soluça 

Pra si mesma 

Na calada da noite infinita, 

Sem sossego, 

Sem razão, 

Sem paz...

Quem pode fazer, não faz.

Nem eu faço minha parte

E carrego em mim esse peso,

Esse fardo, que é minha omissão. 

Não cumpri o meu papel,

Não cumpri minha missão,

E, no peito, em lugar de músculo, 

Trago uma pedra.

Concretei meu coração. 

Vanda Felix



segunda-feira, 15 de março de 2021

Domine o mal que há em ti

Prenda teu monstro dentro de ti.

Não lhe permita destruir tua vida,

Menos ainda,

A vida de inocentes.


Apazigua o demônio que loca teu corpo.

Canaliza tua energia para fins mais nobres


Não lhe dê voz, 

Não lhe dê forças, 

Não lhe dê razão. 

Ao final,

Se não cortar-lhe as asas

É a tua que será, para sempre perdida.

Reflete, enquanto há tempo.

Poupa a quem te ama

De sofrimentos desnecessários.


Tapa a boca desse demônio que em ti habita.

Algema-lhe as mãos

E os pés, também.


Não lhe dê espaço, 

Não lhe dê guarida.

Manda-o para longe

Do teu corpo

E do teu coração.


Não macula com seu ódio 

A alma pura

Que sorri

Ao te ver acordar

Em cada amanhecer.


Domina o mal que há em ti.

Deixa-se inundar pelo amor

Que te pede abrigo.

Deixa-se envolver pela ternura

De quem nada te pede,

Além de que lhe seja amigo.


Deixa-se contagiar pelo vírus do bem,

Da paciência, 

Da tolerância...

Fortifica-se na prática da empatia,

Da sodariedade 

E da pureza do sorriso da criança que te olha,

Que te mira,

Te admira,

Apesar de teus defeitos.


Fortifica a criança que um dia foste.

Faze renascê-la em ti.

Enquanto há tempo. 

Sempre está em tempo, 

Enquanto houver vida.

Vanda Felix




sábado, 13 de março de 2021

Fios

Perdi o fio da meada, 

Também o fio da navalha.

Perdi o trem da História, 

Já não estou certa de onde vim, 

Menos ainda, 

De para onde estou indo. 

Sei, apenas deste instante...

Cada sonho, que sonhei, 

Já se vai além, 

Tão distante. 


Vidas paradas, 

Vidas interrompidas, 

Fome, desespero, medo 

São motores de nossos dias. 

Deixamos de viver, 

Plenamente, 

E forçados fomos 

A sobreviver... 

Um dia, de cada vez, 

A cada instante, 

Inúmeras vidas perdidas,

Já não temos voz nem vez, 

Nem mais direito 

A despedidas. 


Chegamos ao mundo sozinhos 

E, solitários, dele partimos. 


Perdi o fio da meada, 

Mas não perdi a memória, 

Tampouco, perdi a esperança 

De novos dias de glória.

Podemos fazer a diferença, 

Podemos fazer nova revolução 

E recuperar a caneta 

Pra reescrever nossa História.

Vanda Felix




quinta-feira, 11 de março de 2021

Xeque-mate

Fé, 

Esperança, 

Consciência...

Sentimentos e atitudes 

Cruciais,

Determinantes

Em qualquer instância. 

Empatia,

Amor,

Responsabilidade...

Em especial, 

Na atual circunstância

Em que vidas

Escoam por entre os dedos,

Esvaindo-se num leve sopro,

Último suspiro,

Sem mesmo um respiro.

Tal qual água 

Pelo ralo:

Fluída, 

Liquida,

Fugidia.

Água na peneira.

Vento na poeira.

É. 

Não é. 

Já foi...

Aqui jaz 

Rico e pobre,

Reaça e progressista,

Branco, preto

Magro, gordo,

Velho e jovem,

Bom e mau

Do Santo e da Bíblia...

Não há razão, 

Não há critério. 

O destino?

Crematório ou cemitério. 

Sem ritual,

Sem despedida.

Sós chegamos,

Sós partimos.

O "mal do nosso século "

Já está instalado,

Entre todos

Espalhado.

Implacável 

Contra qualquer um de nós 

Que lhe dermos guarida...

Xeque-mate.

"Game over".

Não é jogo,

Não é sorte,

Não há norte.

São consequências 

De nossos atos,

Ações 

Impulsos.

Enquanto,  ainda,

Nos "pulsa o pulso"...

Vanda Felix






Nunca esta letra foi tão atual...
"O pulso" - Titãs 



terça-feira, 9 de março de 2021

Vaguidão iluminada

 Ah, como quero

A vaguidão iluminada

Dos teus olhos

A buscarem os meus

Que se perdem na escuridão do horizonte

Na ilusão de avistarem a fonte

Em cuja água 

Hei de saciar minha sede.

Água fresca,

Pura e cristalina,

Frescor de menina, 

Flor recém-desabrochada.

Ah, como quero

A vaguidão iluminada 

Dos olhos teus

A encontrarem nos meus

Tudo de que precisas

E tudo o que desejas

Na vida.

Vanda Felix.




sábado, 6 de março de 2021

Cilada

 É cilada: 

Promessa de amor eterno, 

Cebola crua na salada, 

Doce de jiló 

Ou de chuchu, 

Ver o sofrimento alheio 

E não se sentir tocada, 

Presenciar injustiça 

 E ficar calada, 

Poder 

E não fazer nada... 

É cilada, 

Fingir normalidade 

 Em tempos de pandemia, 

Não aprender a ter empatia, 

Julgar-se acima do bem e do mal, 

Pensar-se imune 

A todas as mazelas do mundo. 

É cilada 

Aguardar que as coisas caiam do céu, 

 Esperar por milagres 

Sem fazer o que lhe cabe, 

Desdenhar do conhecimento acumulado 

Ao longo da história da Humanidade, 

Disseminar ódio, 

 Rancor e maldade 

Pois a cria 

Pode voltar-se contra o criador, 

E ninguém, 

 Por melhor que se julgue, 

Está imune 

Ao sofrimento e à dor.

Vanda Felix 


 


quarta-feira, 3 de março de 2021

A porta

 A porta 

Que me protege

É a mesma

Que me aprisiona. 

Salvaguarda

Minha existência, 

Mas tolhe

Minha liberdade 

Me faz prisioneira

Em meu próprio mundo;

O de fora, 

Somente vislumbro

Através das frestas.


Desconheço tempo,

Desconheço espaço. 

São quatro paredes,

Mas São seis os lados

E uma única porta,

Que protege e aprisiona...


Sem gotas de chuva

Na face,

Sem sol

Ardendo na pele,

Sem vento fresco

Nos cabelos,

Sem passos,

Sem destino certo,

Pelas calçadas, 

Sem vida,

Além das paredes...

E a porta,

Esta,

Segue trancada.

É minha proteção 

E, ao mesmo tempo,

Meu cárcere...

Vanda Felix 





terça-feira, 2 de março de 2021

A poesia que em mim nasce

 A poesia,

Que em mim nasce

A cada amanhecer 

É diferente da que nasce em ti.

A poesia,

Que nasce em mim

A cada amanhecer 

É diferente a cada dia.

Há dias em que é flor

De suave perfume,

Delicada e única coloração; 

Há dias em que é pedra

Dura e fria...

Há,  ainda os dias

Em que é brisa suave

A desalinhar-me os cabelos

E refrescar minha pele

Marejada de suor

Pelo sol escaldante.

Mas, hoje, está correnteza: 

Inconstante,

Passadiço.

Lavando minha alma

Dos resíduos deste mundo

Poluído,

Imundo...

Vanda Felix




Retomada

 Há tempos não percorria estas páginas... deu até saudade, agora! É que a vida anda tão atribulada, tão conturbada, que meus hábitos mais re...