segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Tenho desejo

Meu desejo
é tê-lo de volta
(Embora nunca
estivesse aqui,
por completo)
com as mensagens de bom dia,
com as promessas de amor,
com nossas longas
noites de desejo,
sem pressa,
sem partida...
Quero nossas saídas
sem destino,
assistir juntos
a um filminho bobo,
qualquer,
somente a pretexto
de poder me deitar
no seu colo,
e rir das trivialidades
com a leveza
dos inocentes.
De contar-lhe como foi meu dia.
Tenho desejo
de que se importe comigo
e me acolha em seus braços
quando me sentir em perigo.
Necessito
sentir que sou querida
por você,
a quem quererei
por toda a vida...
Vanda Felix

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Quintal de Vó

Quintal de Vó é lugar único,
É lugar mágico.
Nele cabem todas as histórias,
Todas as lendas
Que os mais velhos contam
E das quais
Os mais novos se admiram.
Quintal de Vó é mar revolto,
Que agita o barco
Em que a criançada navega.
Tem peixe🐟, tubarão 🦈,baleia 🐋...
Ah! E tem piratas ☠️
Numa nau assombrada ⛴️
Que tira o sono
Da criançada.
Quintal de Vó tem doce,
Tem fruta no pé
Pra gente pegar a qualquer hora.
Tem acampamento⛺,
Sem perigo de ataque de urso🐼.
Tem fantasma 👻 bonzinho,
Tem gênio do mau,
Tem bruxa,
Mas também tem fada.
Quintal de Vó é lugar de saudade,
Que deixa o peito apertado
Mas com gosto de satisfação na boca
Porque a infância foi bem vivida
E pela graça de ter tido
A presença da Vó amada...
Vanda Felix


Curiosidade: A história do piso de caquinhos das casas paulistas

Pode algo quebrado valer mais que a peça inteira? Aparentemente não. Mas no Brasil já aconteceu isto, talvez pela primeira vez na história da humanidade. Vamos contar esse mistério.
Foi na década de 40 / 50 do século passado. Voltemos a esse tempo. A cidade de São Paulo era servida por duas indústrias cerâmicas principais. Um dos produtos dessas cerâmicas era um tipo de lajota cerâmica quadrada (algo como 20x20cm) composta por quatro quadrados iguais. Essas lajotas eram produzidas nas cores vermelha (a mais comum e mais barata), amarela e preta. Era usada para piso de residências de classe média ou comércio.

Foto Mika Lins
No processo industrial da época, sem maiores preocupações com qualidade, aconteciam muitas quebras e esse material quebrado sem interesse econômico era juntado e enterrado em grandes buracos.
Nessa época os chamados lotes operários na Grande São Paulo eram de 10x30m ou no mínimo 8 x 25m, ou seja, eram lotes com área para jardim e quintal, jardins e quintais revestidos até então com cimentado, com sua monótona cor cinza. Mas os operários não tinham dinheiro para comprar lajotas cerâmicas que eles mesmo produziam e com isso cimentar era a regra.
Certo dia, um dos empregados de uma das cerâmicas e que estava terminando sua casa não tinha dinheiro para comprar o cimento para cimentar todo o seu terreno e lembrou do refugo da fábrica, caminhões e caminhões por dia que levavam esse refugo para ser enterrado num terreno abandonado perto da fábrica. O empregado pediu que ele pudesse recolher parte do refugo e usar na pavimentação do terreno de sua nova casa. Claro que a cerâmica topou na hora e ainda deu o transporte de graça pois com o uso do refugo deixava de gastar dinheiro com a disposição.

Agora a história começa a mudar por uma coisa linda que se chama arte. A maior parte do refugo recebida pelo empregado era de cacos cerâmicos vermelhos mas havia cacos amarelos e pretos também. O operário ao assentar os cacos cerâmicos fez inserir aqui e ali cacos pretos e amarelos quebrando a monotonia do vermelho contínuo. É, a entrada da casa do simples operário ficou bonitinha e gerou comentários dos vizinhos também trabalhadores da fábrica. Ai o assunto pegou fogo e todos começaram a pedir caquinhos o que a cerâmica adorou pois parte, pequena é verdade, do seu refugo começou a ter uso e sua disposição ser menos onerosa.

Mas o belo é contagiante e a solução começou a virar moda em geral e até jornais noticiavam a nova mania paulistana. A classe média adotou a solução do caquinho cerâmico vermelho com inclusões pretas e amarelas. Como a procura começou a crescer a diretoria comercial de uma das cerâmicas descobriu ali uma fonte de renda e passou a vender, a preços módicos é claro pois refugo é refugo, os cacos cerâmicos. O preço do metro quadrado do caquinho cerâmico era da ordem de 30% do caco integro (caco de boa família).

Até aqui esta historieta é racional e lógica pois refugo é refugo e material principal é material principal. Mas não contaram isso para os paulistanos e a onda do caquinho cerâmico cresceu e cresceu e cresceu e , acreditem quem quiser, começou a faltar caquinho cerâmico que começou a ser tão valioso como a peça integra e impoluta. Ah o mercado com suas leis ilógicas mas implacáveis.

Aconteceu o inacreditável. Na falta de caco as peças inteiras começaram a ser quebradas pela própria cerâmica. E é claro que os caquinhos subiram de preço ou seja o metro quadrado do refugo era mais caro que o metro quadrado da peça inteira… A desculpa para o irracional (!) era o custo industrial da operação de quebra, embora ninguém tenha descontado desse custo a perda industrial que gerara o problema ou melhor que gerara a febre do caquinho cerâmico.

De um produto economicamente negativo passou a um produto sem valor comercial a um produto com algum valor comercial até ao refugo valer mais que o produto original de boa família…

A história termina nos anos sessenta com o surgimento dos prédios em condomínio e a classe média que usava esse caquinho foi para esses prédios e a classe mais simples ou passou a ter lotes menores (4 x15m) ou foram morar em favelas.
Colaboração: João Paulo de Oliveira


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Olhei

Olhei
o que não devia ter olhado.
Acabei vendo,
o que não queria ter visto.
Doeu,
porque ainda está machucado.
Sofri
o que deveria estar superado...
Mas não está!
A borracha do tempo
não foi capaz de apagar.
O Doutor Tempo
não foi capaz de me curar
a alma,
que sofre,
que sangra,
que chora,
pois ama,
e ama,
e ama...
E quer de volta
o que nunca foi seu,
e quer consigo
o amor
que nunca lhe pertenceu.
Vanda Felix

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Maledicência



A faca afiada
corta a carne,
corta o pão.
A língua descontrolada 
fere a alma,
rasga o coração.
A boca fala
o que a mente ordena,
ora absolve,
ora condena.
Mata, aos poucos,
o inocente,
enfraquece,
faz doente.
A falta de foco, 
o olhar distorcido,
o confuso processo mental
(a serviço do mal),
a ilusão de ótica,
o mal-entendido
tornam réu
quem nunca foi bandido.
Palavras mal-faladas,
mal-escritas
tornam-se malditas,
maledicentes.
Destroem amizades,
amores,
vidas.
Abrem feridas
profundas,
por vezes,
eternas,
que jamais cicatrizam,
ficam abertas,
insuportavelmente doídas...
Cuida de manter em repouso
a língua inquieta
e a mente delirante
e imprudente.
Na dúvida, cala-te!
Na dúvida, esqueça.
Abre mão de criar fatos
apenas possíveis
no teu imaginário.
Não divagues,
não inventes,
não acrescentes,
não seja insensato.
Domina-as 
(a língua e a cabeça)
antes que te dominem
o corpo,
as vontades,
os atos...
Vanda Felix

Retomada

 Há tempos não percorria estas páginas... deu até saudade, agora! É que a vida anda tão atribulada, tão conturbada, que meus hábitos mais re...