domingo, 25 de julho de 2021

Sonho de menina

Queria acordar, de novo, menina,

Criada na vila, distante da urbe

E ir em busca da realização dos sonhos 

Sonhados na noite passada,

Enquanto dormia na rede,

Iluminada pelos raios de luar 

E por todas as estrelas do céu. 

Queria poder me aquecer ao sol, 

Sentada num banco qualquer de praça

Ou numa praia deserta,

De chapéu de aba larga e óculos escuros.

Bronzear a alma pálida, 

Aquecer o gélido coração,

Tirar o cheiro de pó  e mofo...

Queria me esquecer que o futuro é incerto 

E que o amanhã pode não chegar 

(Ou que posso não chegar até ele). 

Queria fazer mais orações de agradecimento 

E menos de pedidos. 

Queria voltar a ter olhos de esperança... 

Mas, qual quê? 

O meu mundo está em desamparo, 

Minha gente está em desespero 

E a menina, que queria voltar a ser,

Inocente, sonhadora e despreparada

Só sabe sentir medo...

Vanda Felix 


(Voilá)


quinta-feira, 1 de julho de 2021

Poesia Livre 2021

 Acabou de chegar. Tá fumegando, ainda, De recém-saído do forno... 

Minha quinta participação no "Poesia Livre", da Editora Vivara, em sua 11a edição. 


 Tão cedo 


 Tão cedo, de mim, te apartaste. 

Nem pude sentir-te o gosto. 

Tão cedo, resolveste deixar-me, 

Que nem posso chamar de desgosto. 

 Vieste na brisa da tarde 

E no primeiro raio de luar, partiste. 

Foste, bem antes do alvorecer, 

Nem pude mostrar-te a aurora, 

Pois, antes dela, foste embora. 

 Partiste, deixando um vazio, 

Um dissabor, de dor tão sentida. 

Partiste, deixando-me triste 

A vegetar, pela vida. 

Vanda Felix, Diadema (orgulhosamente)/SP #concursonacionalnovospoetas #poesialivre2021 #seleçãopoesiabrasileira








quarta-feira, 16 de junho de 2021

Momento

Vivo um momento tão louco,

Tão meu, 

Tão de ninguém...

Minhas tristezas 

São muitas

E minhas alegrias 

São várias! 

E as saudades que sinto 

São tão distintas,

São tantas...

Tenho saudades, vontades 

(Próprias e impróprias), 

Raivas intensas e amenas, 

Desejos proibidos, 

Visões obcenas... 

Queria seguir os meus dias

Regando minhas flores, 

Narrando histórias 

De ingênuos amores, 

Emanando felicidade, 

Paz de espírito,  

Bonança, 

Esperança... 

Mas o caos, ora, instalado,  

Vem transformando, aos poucos,

Minhas pretensas alegrias 

Em dores, 

Medos, surtos,

Rancores... 

Minhas recordações,

Outrora, doces,  

Hoje são doídas saudades 

De dias que não tornarão mais. 

Mal nos erguemos de um tombo, 

Levamos nova rasteira, 

Tentamos nos levantar

E, de novo, comemos poeira.

As pernas, já enfraquecidas, 

Não nos sustentam o corpo. 

O coração, em pedaços, 

Sangra, 

Já fora do peito. 

Os dias não têm mais Sol, 

A noite não nos traz mais a Lua. 

Estamos sós no deserto, 

Abandonados, a esmo, 

Entregues à própria sorte, 

Largados no meio da rua. 

Por mais que busquemos sentido 

Ou razão que tudo explique, 

Jamais teremos entendimento  

Para o presente momento. 

É triste, 

Mas vivemos, de novo, 

Um tempo de incertezas. 

Mente estagnada, 

Sentidos desorientados,  

Coração despedaçado, 

Alma a vagar rumo ao nada... 

O que me enlouquece, agora,

Não são meus delírios, 

São, sim, os meus medos concretos 

Das coisas reais e palpáveis. 

Caminhos incertos, 

Os quais eu percorro 

São meus labirintos, 

Nos quais eu me perco. 

Certo é apenas o abismo, 

Para o qual caminhamos,

Onde seremos empurrados 

Ou nos jogaremos de cabeça. 

A minha esperança, 

Louca do último andar, 

Talvez já tenha se jogado... 

Talvez, não... 

Quem sabe, 

Não esteja trancada, 

À procura da chave perdida, 

Que, uma vez encontrada, 

A traga, de volta. 

Tenho esperança, ainda

(Bem, lá, no fundo, escondida),

De que um dia retorne 

E traga consigo o Sol, 

E o luar que clareia as noites 

E a vontade de dançar na chuva, 

E os beijos 

E abraços bem fortes, 

Que nos dão todo sentido à vida.

Vanda Felix





sexta-feira, 21 de maio de 2021

Razão para viver

 Minha mãe, 

 Minha preciosa joia

De incalculável valor. 

Minha base de sustentabilidade 

 E esteio do meu abrigo. 

Me deu a vida, 

Me deu um rumo. 

Me deu a mão, 

Sempre que precisei. 

Sua vida, por mim daria,

Sem pensar nas consequências.

És parte de mim, 

Como sou parte de ti. 

No grito silencioso 

De nosso abraço, 

 Digo ao mundo 

O quanto te amo. 

O coração chega a doer 

Tamanha e intensa é a dor, 

Que, salvo a vivência desse amor, 

Não teria mais razões para viver.

Vanda Felix




quinta-feira, 29 de abril de 2021

Saga de professora - Parte I

 

Saga de professora

Parte I

 

 

No quesito “invencionice”, o brasileiro é mesmo insuperável!

Hoje, fui apanhada pela descoberta de um fonema, até então, oculto na língua lusitana, mais conhecida como “A última flor do Lácio”, em sua vesão américo-brasiliense, que é o fonema “fh”. Isso, mesmo: “fh”, que eu, na minha santa ignorância, pretensamente acadêmica, não atentei à possibilidade de existência.

Explico: uma mãe me liga, desesperada, porque o nome da filha é grafado com “f” e não com “p”, como eu registrara, pensando tratar-se de um arcaísmo, devidamente seguido pelo “h”. Como não concordo, mesmo com essas complicações, agradeci, pela observação e fiz a correção, pensando, desta forma, estar mais ajustada, a ortografia do referido nome, às nossas normas linguísticas.  Nova ligação, mais desesperada: “Não é ‘f simplinho, assim’! O nome da minha filha é com ‘fh’!”

Já não bastassem todas as confusões com o nome, que já faço, por conta das possibilidades de ser grafado com ph, f, th, nn, nny, nie, ainda me aparece mais esta!

Por que os pais não registram mais suas meninas com o belo nome de “Estefânia”, devidamente acentuado, por se tratar de uma paroxítona terminada em ditongo crescente? Ou por seu correspondente abrasileirado do inglês, Estéfane, uma bela proparoxítona que nos dá gosto de acentuar e pronunciar? Só para complicar as vidas dos pobres professores alfabetizadores, que se verão impossibilitados de recorrer à estratégia de ensino da leitura e escrita a partir do nome da criança, por não terem como explicar à pobre criança as formações silábicas de nossa língua a partir do nome de seu aluno?

Vale a pena esse “diferencial” todo?

E o pobre do “Wanderceidson”, que tão bem poderia ser chamado de “Vander filho da Cleide”, com mais sonoridade e inteligibilidade?

Já estou com medo das próximas listas de chamadas, com os futuros “Covidson”, “Ifanielson/Ifaniele/Ifaniete”, as gêmeas “Clora” e “Quina”, e, por aí, vai...

Venha logo, aposentadoria, que quero lhe usar, antes de ensandecer!

Vanda Felix




segunda-feira, 19 de abril de 2021

Ponto


 

Nosso ponto 

De encontro 

Hoje é um ponto 

De interrogação. 

Depois de tanto desacerto, 

Desencontro, 

Desconcerto 

E desperdício 

De tempo,

Não há tempo 

Para encontros. 

Meus cabelos 

Já estão brancos 

E meus olhos turvos 

Pelo sono. 



Já não durmo, 

Já não penso, 

Já não sonho, 

Já não amo. 

Não há tempo, 

Não há clima. 


 Já não sou 

Mais tão menina, 

Nem senhora 

Dos meus rumos. 

Sou alma solta no vento, 

Sem assento, 

Sem destino. 



Sinto o passar dos anos, 

Sinto o peso 

Do meu tempo. 

Dói na alma 

A lembrança 

Da criança 

Que sonhava, 

Mas não pode 

Viver o sonho. 



Perdeu a parada, 

Perdeu o ponto... 

Perdeu o encanto 

Pela vida 

Que podia 

 Ter vivido. 



Se perdeu 

Num labirinto 

 De enganos 

 E ilusões. 

Ponto cego. 

Ponto morto. 

Mar revolto 

Foi seu destino. 



Longe do porto, 

Sem carinho, 

Sem conforto...

Vanda Felix

terça-feira, 6 de abril de 2021

Dona Esperança

 "Nossas vidas começam a terminar no dia em que permanecermos em silêncio sobre as coisas que importam" 

Martin Luther king



Um balde d'água fria na face

da tal da Dona Esperança. 

Uma mudança

de amor

e de humor.

Bem-me-quer,

mal-me-quer.

Quem sabe o que você quer?

Um sobe e desce,

uma dança. 

Sem rotina,

sem constância.

Sobe e desce,

some e aparece.

Quem é?

Quem foi?

Quem será?

Quem, agora, o sabe?

Memórias que lhe escapam,

fugitivas,

histórias esquecidas,

uma vida.

Hoje, sombra de sua existência. 

Espelhos que não refletem 

a luz de sua presença. 

Dona Esperança...

Em que dedo repousa

sua dourada aliança?

Dia e noite se confundem,

horas se fundem

sem a marcação dos dias.

O tempo é um engodo, 

um pobre louco sentado

na praça 

a falar com os passarinhos...

A memória, 

hoje, gaveta trancada

a sete chaves.

Pra onde foi Dona Esperança?

Quis voltar a ser criança, 

mas, já,  sem tanta energia

para comigo brincar. 

Sem história,

sem memória, 

sem riso alegre, 

sem graça...

A vida passa,

simplesmente por passar...

Vanda Felix.




Retomada

 Há tempos não percorria estas páginas... deu até saudade, agora! É que a vida anda tão atribulada, tão conturbada, que meus hábitos mais re...