terça-feira, 8 de março de 2022

O tempo não tolera

Nos braços cruzados

Moram os corpos

Não abraçados, 

Mas, sempre iminentes,

Sempre carentes

De serem alcançados. 


Na boca entreaberta,

O riso não está estampado,

O beijo molhado

Também mora lá  

Como as palavras não ditas,

Que fazem a alma

Ser consumida

Pela dor e arrependimento. 


As mãos,  

Que não se acarinharam,

Ainda têm tempo

De buscar a face

Em que a lágrima sofrida

Do desprezo e do abandono

Teima em rolar.


Mas, ainda, há tempo!

Não se sabe quanto,

Mas você ainda tem tempo!


Busque o aconchego,

O sabor, já quase esquecido,

Do beijo tão desejado,

O conforto das palavras

E a alegria do riso solto,

Enquanto o tempo

Ainda é presente

E não te foge a galope...


Busque a face amada 

Enxugue sua lágrima 

E se entregue à chance

De ser e fazer

Feliz quem te espera.


O tempo não tolera

Atraso e hesitação. 

Fazendo o bem ao outro, 

Você,  também o faz,

Ao seu próprio coração.  ❤ 

Vanda Felix 




segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Seguindo o baile

 *Seguindo o baile*


"Oi, você está bem?"

"Sim, claro! Por que, não?"

A vontade, que me bate

É de responder

Com a verdade:

"Não,  claro, que não!"

Mas, enfim,

Que diferença faria?

Sabemos que essa pergunta,

Na maioria das vezes,

Nos é feita

De modo "pró-forma"

Sem que, de fato a resposta,

Tenha algum interesse, 

Sendo sincera,  ou não, 

Não fará a mínima diferença ,

Nem numa possível empatia,

Por parte de quem a fez,

Nem na resolução 

Do que nos aflige.


Aflição...

Hipertensão...

Depressão...

Solidão...


Seguimos, então, 

Fingindo que está tudo bem...

Conosco e com o mundo!

Seguimos fingindo dar conta 

De todas as demandas,

De quitar todas as contas...


Até que uma hora... 

"Plaft!"

A máquina, que, já não é 

O último modelo da fábrica, 

Quebra!


Quebra

Porque nada é cem por cento perfeito

(Nem nós, humanos,

Pretensamente 

E iludidamente 

Superiores).

Quebra

Porque a carga foi muito maior

Que a capacidade dos nossos ombros.

Quebra

Porque qualquer equipamento 

(Ou pessoa)

Carece de um repouso

E reparos regulares.

Quebra

Porque não é imune

A imprevistos,

Nem a acidentes.

Quebra

Porque até a garantia estendida

Vence.

Quebra

Porque quebra,  ué?

E, agora, o que se faz?


Pensamos que somos únicos,

Insubstituíveis, 

Mas não somos!


Numa possível ausência, 

Outro nome ocupará 

O nosso lugar

Na lista de controles.

Outra data de nascimento 

Indicará a quem serão dados 

Os "parabéns" no aniversário. 

Outra "bunda"

Tomará nosso assento, 

E, por aí afora,

Sem que sejamos,

Sequer, lembrados,

Quiçá,  citados

Nas datas festivas 

Nos anais da família 

Ou da instituição 

Que tomou nosso sangue,

A grandes goles,

Ainda quente...

Mas, agora esfriou,

Coalhou

E não lhes serve para mais nada,

Nem mesmo para referência,

Menos, ainda, para reverência...


Findo o féretro,

Findas as lágrimas, 

Que nos resta?

Nada!

Talvez, mesmo,

Nem lembranças...

Tarde demais para agir.

Nada mais a se fazer...


A máquina quebra...

E não há conserto. 

Jaz  sucata

N'algum canto.

Quebra

Porque é frágil. 

A ferrugem lhe corrói...


Descarte.

Troca.

Substituição. 

Outras virão:

Mais modernas,

Mais tecnológicas, 

Novas,

"Novinhas"...

Mas, também, passarão. 

O ciclo, que não se fecha.

E segue-se com o baile,

Noite adentro,

Vida afora...

Vanda Felix



domingo, 13 de fevereiro de 2022

Nostalgia

 Nostalgia


࿐ꕤ ͜·*˚


Hoje me vi tomada,

De repente,

Pela nostalgia

E reflexão. 

Pensei em lugares que habitei, 

Pessoas que conheci,

Com quem convivi

E nas funções que desempenhei. 

Quem tomou o meu lugar?

Quem ocupou o meu espaço?

Ninguém...

Porque nada, nunca,

Foi, de fato, meu.

Chegou meu tempo

De mudar de estrada,

Dar oportunidade 

A quem,  de chegada.

Deixei o posto,

Sem olhar para trás.

Se sinto saudades?

Demais!

(Mas, não,  arrependimento...)

Cumpri a missão 

À qual me propus,

Não havia razão 

De prolongamento. 

Deixei o lugar

Que, por muito, ocupei,

Sem dele ser dona.

Saudades restaram,

Tão doces lembranças:

Amigos, cantinhos,  

Flores, crianças...

Quem sabe,

Quem veio a assumir

O lugar

Que nunca foi meu,

Não seja alguém 

Que em mim se inspirou?

Sei que deixei um legado,

Sei que fiz coisas boas,

Creio que, nesta vida,

Nada se dê ao acaso, 

Nada se faça à toa.

Fui responsável 

Pela formação de tanta gente,

Ao mesmo tempo em que,

Com eles,

Também me formava.

Dias frios, 

Dias quentes,

As quatro estações, 

Ao longo dos anos se repetindo...

Seguimos evoluindo,

Seguimos adiante,

Ontem, tão próximos, 

Hoje, tão distantes,

Mas, nem por isso, ausentes...

Vanda Felix




quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Duplas perfeitas

 


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Café com pão, 

Trilho e trem,

Molho e macarrão. 

Duplas perfeitas,

Como eu e você 

Ou,

Caso queira,

Você e eu. 

Queijo e goiabada,

Azeite com salada,

Eu, você 

E mais nada...

Duplas que se completam,

Olhos que se contemplam,

Mãos que sabem o quê 

E onde encontrar

O que querem. 

Mãos que acarinham,

Mãos que não ferem.

Minhas mãos e as suas...

Quarteto perfeito.

Duo de duplas,

Que se entrelaçam 

Sem culpa,

Na cumplicidade,

De um momento

Só nosso...

Vanda Felix



I


quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Contraditórios

 


Posso deixar de fazer,

Mas não posso deixar de sentir.

Até controlo meus atos,

Mas, jamais,  meus sentimentos.  

Faço cara de "paisagem",

Quando desmorono por dentro.

Sou, fisicamente,  autoimune,

Mas não sou imune

Aos meus pensamentos. 

Sofro, quando sofres,

Faço-me de forte

Para te impressionar.

Carrego a dor latente, 

E ela segue crescente

Dentro de mim.

A alma sangra, 

Enquanto estampa

O sorriso que vês em meu rosto.

Quero que me vejas forte,

Desejo-te sorte,

Saúde,  paz e felicidade.

Mas, na verdade,

Dentro de mim,

Carrego uma dor sem fim.

Quero que me vejam bem,

Sorrio, brinco,

Conto anedotas.

Me faço parecer otimista, 

Quero que persistas 

Sem desistir de viver.

Mas, morro por dentro,

Um pouco a cada dia

E, embora sorria,

Estou a sofrer.

Vanda Felix




terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Insônia

 *Insônia*



Há uma dor no meu peito,

Feito a transposição de uma adaga

Que me atravessa a alma,

Deixando uma ferida profunda,

Viva, 

Sangrenta,

Latejante...

Um vazio

Que não se preenche...

Cai a noite,

Rompe o dia,

Essa tal melancolia

Só faz se agigantar...


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Cada estrela que surge 

Na imensidão da noite escura,

É como a ponta de agulha

Que em cada milímetro de mim,

Faz um novo orifício,

De modo que seja difícil 

Mesmo contabilizar.

São infinitas feridas,

Ao longo da minha vida,

Que resistem a cicatrizar.

Roubam minha paz

A mão desarmada,

Tiram meu sossego,

Estendem a madrugada, 

Que se faz infinita,

Cíclica,

Sombria.

Seguindo ao meu lado

E roubando meus sonhos

Até o raiar do dia

É o tempo marcado

No cruel tic, tac

De um relógio quebrado...

Vanda Felix




Bom-senso

 

Vamos ao que interessa,

Pois todos temos pressa,

Em fazer valer nossas vontades,

Nossos anseios mais íntimos, 

Doam, a quem possam fazer doer...

Entre a paz e a razão,  

Tenho optado pela primeira...

Sou humana,

Imperfeita,

Falha, frágil 

E equivocada.

Pedir perdão, 

Se necessário, 

Não me é humilhação. 

Antes, 

Voto de humildade,  

Caráter reto, 

Liberdade

De ser e deixar de sê-lo, 

Sem vaidade, 

Conforme dite minha consciência. 

Prezo meu bem-estar, 

Mas também o do outro.

Calo-me para não magoar, 

Se o momento é inoportuno, 

Prefiro aguardar, 

Sem, no entanto,  ser omissa.

Antes prudência 

Que rompante.

Assisto a toda a missa,

Antes de proferir meu "amém".

Não sou imune às dores alheias,  

Sejam do corpo

Ou da alma.

Mas pondero

Para não alastrar a ferida.

Se não posso ser antídoto,  

Também não me faço veneno.

Mas, antes de tudo,

Humana:

Falha, 

Fraca, 

Frágil 

E, muitas vezes, 

Equivocada.

Mas, sem compromisso

Com o erro,

Sem pacto com o engano.

Tabulo, 

Mapeio, 

Pondero.

Rearranjo fórmulas, 

Simulo,

Testo...

Não é frieza,  

Tampouco,

Do meu espírito, a fraqueza.

Chamo a isso bom-senso.

Vanda Felix




Retomada

 Há tempos não percorria estas páginas... deu até saudade, agora! É que a vida anda tão atribulada, tão conturbada, que meus hábitos mais re...