domingo, 1 de março de 2020

Ruas

Acordei plena e "dona do mundo".
Ainda bem cedo, antes do raiar do sol, pus-me de pé e a caminho. Ruas vazias, ruas todas minhas...  Vias, vielas, cruzamentos, desvios...
 Sensação de liberdade gostosa.
Vento no rosto, disposta a "caminhar" pelas estradas que se abriam à minha frente.
Ora, se, por "caminhar" entende-se "percorrer um caminho", saí a caminhar no interior do meu carro, coisa que raramente tenho feito, que pouco tenho me permitido...
E caminhei, caminhei ao encontro do desconhecido, do improvável, do mistério que é o instante seguinte. E, surpreendentemente, não senti a companhia do medo, esse parceiro indesejável que, há tempos casou-se comigo. Sinto que hoje selei este divórcio, e vi as estradas, que bem queria de flores ao invés de asfalto, abrirem-se à minha frente dando-me a opção do infinito...
E, nele, mergulhei de cabeça. De braços abertos e alma liberta, repleta de ousadia e coragem de ser quem eu sou em essência, a despeito do que, involuntariamente tenha sido...
Vanda Felix



domingo, 26 de janeiro de 2020

Joaninha

Tenho nas mãos uma joaninha,
Dessas nada convencionais,
Além de não ter as pintinhas
A que estamos habituados
A ver, nas mais ocasionais,
Também não é vermelhinha,
Mas bege,
Um bege quase amarelo,
O que faz dela uma rebelde,
Ou uma renegada,
Diferente da maioria
A que estamos acostumados.
Mas, que me traga a mesma sorte,
Que se espera da mais comum.
Joaninha, joaninha,
Tua diferença é um grito
De liberdade?
Cansaste de ser igual às outras,
Por isso te rebelaste?
Sabes o preço a pagar
Por tamanha inconveniência?
Rejeição,
Discriminação
E mesmo atos de violência?
Não se aceita o diferente,
O que foge à "normalidade",
Infelizmente, esse é meu mundo,
Essa é minha realidade...
Jamais serás respeitada
Por sua singularidade.
Vanda Felix




quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Balcão de memórias

Há tempos me busco
E não me encontro.
Me olho e não me vejo.
Me toco e não me sinto.
Ausente de mim mesma.
Digo que gosto
Ao que não desejo,
O que encontro, desdenho.
A mente divaga,
Viaja no tempo.
Num tempo sem volta
Ao qual nunca fui,
Do qual nunca vim.
Vivi mentalmente
O que sinto saudades,
Na vida, de fato,
Me faltam verdades.
E penso na falta
Do que não tive,
Do que não vivi
E me traz nostalgia.
Na falha memória
A alma se refugia,
Inventa histórias,
As quais não viveu.
E sofre, de novo,
O que não sofreu.
O tempo é uma farsa
E a gente disfarça
O que não quer mostrar.
Inventa memórias,
Mentiras,
Histórias
Que queira contar.
Por isso a procura
Que faço por mim,
Se torna inócua,
Inútil, vazia.
Não há o que encontrar,
Senão fantasia.
Balcão de ilusões,
De falsa esperança
E ingênua alegria.
Vanda Felix


segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Janeiro se fez seis

E janeiro já se faz seis,
Sexto dia,
Sexta noite.
Dia de celebrar Santos Reis,
Que nos trazem esperança,
Alegria
E boa sorte.
Dia de guardar o presépio,
Exposto desde o ano passado.
Hora de desmontar nossa árvore
Cheia  de lembranças
E de elementos novos.
Guardar a guirlanda,
As louças e toalhas temáticas.
Desligar o pisca-pisca
Que nos iluminou nos últimos tempos
E seguir com luz própria.
Hora de renovar
E esperar pelo próximo Advento.
Esperar que o Menino que nasceu
Renasça num mundo melhor
No próximo Natal,
Num mundo que se faça mais justo
E que o Bem
(Bem-querer, bem-fazer, bem-viver...)
Prevaleça sobre todo o mal.
Um mundo em que cada humano,
Seja do outro um igual,
Respeitando as diferenças,
Superando as desigualdades,
Vivendo em plenitude
Toda a diversidade.
Vanda Felix

(Arte de Conceição Rosa)


terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Desígnios

Estou me virando do avesso
Para tentar compor meu verso.
Choro, grito, rezo...
Muito dou,
Mas muito peço.
Peço a Deus que me ilumine,
Faça claras minhas ideias.
Que Ele oriente meus passos,
Guie minhas mãos
E desanuvie meus pensamentos.
Que ele me presenteie com coerência,
Humildade,
Paciência
E resignação, na dose acertada,
Para me rebelar contra as injustiças
Mas compreender os seus desígnios.
Vanda Felix

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Talvezes

Quis voar no vento,
De braços abertos,
Em queda vertiginosa
E livre,
Feito ave de rapina.
Descer as corredeiras
Em braçadas vigorosas
(De cabeça).
Mas os ventos foram fortes demais
E as corredeiras, violentas.
Formou-se vendaval
Que me atirou contra rochedos
(Implacável muralha nativa)...

 Ah, se Deus me permitisse tornar ao voo!
Talvez, não arriscasse tantas rasantes,
Talvez, as tentasse todas de novo...
Talvez.
Talvez testasse, de novo, minha resistência
Contra a rebentação.
Talvez quisesse, de novo,
Sentir o vento na face.
Talvez saltasse do precipício
Sem paraquedas.
Talvez...
Em queda livre,
E eu, livre e liberta,
Despida de meus medos,
De meus preconceitos...
Talvezes...
Tantas fossem as vezes
Em que tivesse oportunidade.
Vanda Felix

Crédito da imagem: https://pt.slideshare.net/mobile/vilpires/talvez-4834595

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Onde nascem as palavras?

Onde nascem as palavras?
"Resposta óbvia", dirão!
"Na boca!"
Contesto!
Muitas nascem no estômago
E são vomitadas na cara
Daqueles que nos nauseiam...
Outras, no útero.
Essas, vêm envoltas em cuidados
De proteção e carinho.
São mansas, doces
E zelosas.
Há também as que advêm do fígado.
Amargas, como fel.
As que nascem no coração
São imprudentes.
Saem instintivamente,
Sem pesar as consequências.
São infantis e temperamentais,
Desconhecem protocolos e rituais,
Talvez por isso
Nos façam sofrer mais...
Vanda Felix

Retomada

 Há tempos não percorria estas páginas... deu até saudade, agora! É que a vida anda tão atribulada, tão conturbada, que meus hábitos mais re...