segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Talvezes

Quis voar no vento,
De braços abertos,
Em queda vertiginosa
E livre,
Feito ave de rapina.
Descer as corredeiras
Em braçadas vigorosas
(De cabeça).
Mas os ventos foram fortes demais
E as corredeiras, violentas.
Formou-se vendaval
Que me atirou contra rochedos
(Implacável muralha nativa)...

 Ah, se Deus me permitisse tornar ao voo!
Talvez, não arriscasse tantas rasantes,
Talvez, as tentasse todas de novo...
Talvez.
Talvez testasse, de novo, minha resistência
Contra a rebentação.
Talvez quisesse, de novo,
Sentir o vento na face.
Talvez saltasse do precipício
Sem paraquedas.
Talvez...
Em queda livre,
E eu, livre e liberta,
Despida de meus medos,
De meus preconceitos...
Talvezes...
Tantas fossem as vezes
Em que tivesse oportunidade.
Vanda Felix

Crédito da imagem: https://pt.slideshare.net/mobile/vilpires/talvez-4834595

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Onde nascem as palavras?

Onde nascem as palavras?
"Resposta óbvia", dirão!
"Na boca!"
Contesto!
Muitas nascem no estômago
E são vomitadas na cara
Daqueles que nos nauseiam...
Outras, no útero.
Essas, vêm envoltas em cuidados
De proteção e carinho.
São mansas, doces
E zelosas.
Há também as que advêm do fígado.
Amargas, como fel.
As que nascem no coração
São imprudentes.
Saem instintivamente,
Sem pesar as consequências.
São infantis e temperamentais,
Desconhecem protocolos e rituais,
Talvez por isso
Nos façam sofrer mais...
Vanda Felix

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Em qualquer tempo

Em qualquer tempo,
Se a dor que te corrói
É por demais
Intensa,
Não pensa!
Centra-te no que te vale a pena,
Centra-te no que te recompensa...

Vence
A dor,
A tristeza,
O desamor,
Buscando aquilo
Que compensa.

Cresce!
E faze crescer em ti
Somente nobres sentimentos.
Cultiva sorrisos,
Alimenta ações gentis,
Ignora a ignorância,
O escárnio,
As atitudes hostis.

Em qualquer tempo,
Peneira seus sentimentos,
Aduba a positividade,
Pois tudo que vive requer alimento.
Então, vive
E alimenta-te de felicidade!
Vanda Felix


terça-feira, 12 de novembro de 2019

Agora

E, agora,
O que a gente faz?
Comemora
A desgraça que nos devora?
Ou senta e chora?
Resignados,
Conformados e passivos,
Impassíveis
Diante dos fatos impossíveis
De serem acreditados...
Arregaça as mangas
E põe o pé na estrada,
São muitos os caminhos
Que se apresentam mundo a fora.
Afora isso,
Não há mais nada.
E gora?
Ficar ou ir embora?
Anda,
Que a vida passa
E tudo o que temos
É o instante, o agora.
O passado já passou,
Virou lembrança,
Saudade.
O futuro... Quem o sabe?
É apenas uma possibilidade.
Apenas o presente
Se constitui realidade.
Vanda Felix

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Desfalque

E nós, que temos por hábito
Colecionar pessoas,
Não sabemos lidar
Com o desfalque...
Dói no fundo da alma,
Cada perda,
Cada descarte.
São peças sem reposição,
Únicas e raras
A comporem o mosaico
Dos nossos corações...
Vanda Felix

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Velhas novidades

Os ares não são os mesmos.
Também não são as mesmas as caras,
As cores,
Antes vivas,
Agora desbotadas.
Não são os mesmos lugares,
Tudo novo,
Tudo mudado.
O mundo gira
E ninguém fica parado.
Mas, apesar das caras novas,
Velhos são os hábitos,
Velhas concepções,
Velhos vícios reafirmados.
Cérebros inativos,
Embotados,
Consumindo "enlatados"
Que nos entalam,
Sufocam,
Calam-nos a voz,
Tiram-nos a vez
De uma só vez,
Num susto só.
Novos tempos,
Velhos perigos.
Armadilhas escondidas
Em cada palmo dessa estrada
Sem retorno,
A qual chamamos vida...
Vanda Felix

(Sobre o hoje...)


quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Escoar

Somos um compêndio de histórias várias
Que vivemos,
Vivenciamos
Ou nos contaram.
Antologia ambulante
De narrativas,
Discursos,
Teses acusativas
E arguições defensivas
Que nos constituem em páginas rascunhadas,
Rabiscadas,
Arrancadas,
Revisadas,
Reescritas,
Relembradas.

Somos o que herdamos...
Somos o que vivemos...
Somos o que sentimos.
Quebra-cabeças confuso,
Desafio insolucionável,
Teorema improvável.

Na somatória dos dias,
Que nos constitui e nos desfaz,
Caminho sem volta.
O tempo que segue,
Consigo nos leva,
Mas não nos devolve,
Sequer regurgita:
Mastiga e engole.

Seguimos...
Ora vendados,
Ora atentos,
Seguimos em frente,
Olhar adiante,
Sempre avantes,
Seguimos.

Sem volta,
Sem a menor segunda chance.
Escoamos
Feito as areias do tempo,
Por entre os dedos da vida.
Feito água, escoamos.

Compondo histórias,
Buscando memórias,
Remotas lembranças,
Que não tornam mais.

Viver e escoar,
Esvair-se,
Acabar-se.

Finda o tempo
Ao fim do tempo
Que foi-se
E junto do qual
Fomos...
Vanda Felix


Retomada

 Há tempos não percorria estas páginas... deu até saudade, agora! É que a vida anda tão atribulada, tão conturbada, que meus hábitos mais re...